sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Blog Abrupta Sede



Este é o blog oficial do livro Abrupta Sede (2010 - Via Litterarum), de Emmanuel Mirdad, com ilustrações de Marceleza de Castilho.

Aqui você vai encontrar 25 opinativos sobre os contos, escritos por diversos amigos e amigas do autor, que se aventuram pelo mundo das palavras, da música, do cinema e das artes gráficas e em geral.

Fique à vontade para ler e opinar sobre os contos e os textos.


Sumário





Conto #01 - Botox

Opinativo de Aurélio Schommer

Leia aqui









Conto #02 - Sereno Aceitar

Opinativo de Miguel Cordeiro

Leia aqui








Conto #03 - Afrodita

Opinativo de Wladimir Cazé

Leia aqui










Conto #04 - De Tanto Inverso

Opinativo de Álvaro Andrade

Leia aqui










Conto #05 - Adonias Chumbo - Episódio Zigariz

Opinativo de Rodrigo Minêu

Leia aqui










Conto #06 - Será Alucinaberração?

Opinativo de Marceleza de Castilho

Leia aqui










Conto #07 - Aromas, Desejos e Motivos

Opinativo de Tarcísio Buenas

Leia aqui










Conto #08 - Augusto Notários

Opinativo de Zanom

Leia aqui










Conto #09 - Voltaunador

Opinativo de André Setaro

Leia aqui










Conto #10 - Pássaros Deliram

Opinativo de Mayrant Gallo

Leia aqui










Conto #11 - Afetamim

Opinativo de Eliana Mara

Leia aqui










Conto #12 - Despedaço

Opinativo de Katherine Funke

Leia aqui










Conto #13 - O Reino

Opinativo de José Inácio Vieira de Melo

Leia aqui










Conto #14 - Armadilha Espetáculo

Opinativo de Vanessa Souza Moraes

Leia aqui










Conto #15 - Sagantaz

Opinativo de Marla Barata

Leia aqui










Conto #16 - Samuel & Beatriz

Opinativo de Ted Simões

Leia aqui










Conto #17 - Maestro

Opinativo de Georgio Rios

Leia aqui










Conto #18 - Ex-Embolhado

Opinativo de Nelson Magalhães Filho

Leia aqui










Conto #19 - Apenas Um Homem e Seu Medo

Opinativo de Leandro Pessoa

Leia aqui










Conto #20 - Absoluto

Opinativo de Raiça Bomfim

Leia aqui










Conto #21 - Anuviar

Opinativo de Ildegardo Rosa

Leia aqui










Conto #22 - Abilolar

Opinativo de Louise Lobato

Leia aqui










Conto #23 - Fagocigo

Opinativo de Breno Fernandes

Leia aqui










Conto #24 - Portassar

Opinativo de Victor Mascarenhas

Leia aqui









Conto #25 - Inesgota

Opinativo de Eliana Mara

Leia aqui



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Conto #01 - Botox


Marceleza de Castilho


Uma empresária poderosa
e as estratégias sutis da sobrevivência.

“Nos últimos anos, cristalizou a sua marca, criteriosamente bem gerida, no mercado destroçador. Assistiu a queda de várias concorrentes, analisando, detalhadamente, os erros e as tendências. Assim, especializou-se nas dondocas e peruas, sem constrangimento algum em inflacionar o preço que oferta em 400%. No material que expõe com vaidade, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos, e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos no Sul do país, etc. O balaio de gato cai então nas mãos hábeis de algumas funcionárias de extrema confiança, que costuram, com muita delicadeza, a preciosidade da coleção: a etiqueta.”

-----

Opinativo de Aurélio Schommer


Ritinha, lindinha, gracinha, novinha, João Carlos, bom partido, classe A, melhor dizendo, ótimo partido. Casou, cedo, na flor da valorização máxima dos 20 e poucos. Ele, o provedor; ela, os filhos, os cachorros, a academia, a soçaite, para que carreira se ele tudo cuidava? Até que, tédio mortal, 40 anos, divã, ela descobre: não sou ninguém. Não era mesmo.

Vera, “para dondoca não sirvo”, faculdade, carreira, homem só se for independente, casar só depois do sucesso. O sucesso vem, década e meia, mas vem. Enquanto isso, as velhas amigas todas casaram, convidam, ela não pode, acha que não pode, as amigas vão estar com os maridos, ou vão falar dos maridos, talvez dos amantes, sucesso afetivo, sucesso de múltiplos gozos, grana, homem, posição social, holofotes. Ela, só a carreira, tão solitária...

Marília não é Vera. Casou. Casou bem (do ponto de vista da grana). Também não é Ritinha. Há que empreender. Não qualquer empreendimento, algo visionário, o máximo, nada de boutique de dondoca financiada pelo provedor chateado com o desperdício e a má administração. Não. É a grife, o nome invejado, divulgado, repercutido. Marília não precisa de sucesso afetivo: tem chocolates e poder. Não precisa de gozos fúteis: tem os da Glória. Sua história não é romântica: é épica. Até que o infortúnio...

Ritinha e Vera não estão no conto Botox, de Emmanuel Mirdad. Elas seriam banais demais para um escritor que só encara desafio pesado, que só gosta de personagem escroto, vivo, pulsante. Botox é sobre Marília, sobre o câncer, sobre Érica, a mau-caráter, traidora, sobre Roberta, a incógnita. Também é sobre o poder, mas nada disso importa, pois o legal mesmo é curtir Mirdad em virtuose verborrágica, fluxo contínuo de emoções intensas e completamente inesperadas. Como diz o próprio autor do impagável Botox, “o que seria da ficção sem a surpresa?”.

Surpreso fiquei com este conto, vale mais que um romance, história tão rica quanto o ambiente classe A em que se passa. Sem Ritinhas ou Veras, têm as mulheres de Mirdad: escrotas, poderosas, capazes de nos surpreender. Imperdível.


Aurélio Schommer é escritor e roteirista.

Conto #02 - Sereno Aceitar

Marceleza de Castilho


Um solitário porteiro bigodudo,
e o fatal alumbramento repentino.

“Estômago tapado, boa noite, boa sorte. Casa. Os pelos fartos do corpo fediam mais ainda. Teve que improvisar a higiene. De balde e cara de pau armada, foi até o único ponto de água comum do surrado edifício. Lá mesmo, sem cerimônia alguma [e nada disposto a subir um lance de escada com o balde cheio], lavou apenas as axilas e o rosto/pescoço. Era o necessário para um homem solitário.”

-----

Opinativo de Miguel Cordeiro


Fazer o quê se o cara só pega o jornal para ver as notícias de futebol e as páginas policiais?

A história seria diferente se ele tivesse lido a declaração daquele deputado nordestino, velhíssima raposa da política nacional e que apoiou todos os presidentes que o Brasil já teve, independente da ideologia do governo de plantão.

Pois o tal deputado afirmou do alto da sua sabedoria:
- Homem decente não faz oposição aos governantes. Não anda na dianteira de padre nem na traseira de jegue, não veste terno branco e nem usa óculos raiban.

Os que perceberam o significado da frase proferida pelo nobre parlamentar logo adicionariam a esta lista que se deve evitar, também, o uso de sapatos vermelhos.

Homem que se preza não usa sapatos assim.

A história poderia ser diferente, mas ele só sabia que seu time de coração tinha contratado um atacante goleador e que aquele desocupado que passava o dia inteiro no bar da esquina tomou um tirombaço à queima-roupa.


Miguel Cordeiro é músico, compositor, artista plástico e escritor.