Uma empresária poderosa
e as estratégias sutis da sobrevivência.
“Nos últimos anos, cristalizou a sua marca, criteriosamente bem gerida, no mercado destroçador. Assistiu a queda de várias concorrentes, analisando, detalhadamente, os erros e as tendências. Assim, especializou-se nas dondocas e peruas, sem constrangimento algum em inflacionar o preço que oferta em 400%. No material que expõe com vaidade, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos, e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos no Sul do país, etc. O balaio de gato cai então nas mãos hábeis de algumas funcionárias de extrema confiança, que costuram, com muita delicadeza, a preciosidade da coleção: a etiqueta.”
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Opinativo de Aurélio Schommer
Ritinha, lindinha, gracinha, novinha, João Carlos, bom partido, classe A, melhor dizendo, ótimo partido. Casou, cedo, na flor da valorização máxima dos 20 e poucos. Ele, o provedor; ela, os filhos, os cachorros, a academia, a soçaite, para que carreira se ele tudo cuidava? Até que, tédio mortal, 40 anos, divã, ela descobre: não sou ninguém. Não era mesmo.
Vera, “para dondoca não sirvo”, faculdade, carreira, homem só se for independente, casar só depois do sucesso. O sucesso vem, década e meia, mas vem. Enquanto isso, as velhas amigas todas casaram, convidam, ela não pode, acha que não pode, as amigas vão estar com os maridos, ou vão falar dos maridos, talvez dos amantes, sucesso afetivo, sucesso de múltiplos gozos, grana, homem, posição social, holofotes. Ela, só a carreira, tão solitária...
Marília não é Vera. Casou. Casou bem (do ponto de vista da grana). Também não é Ritinha. Há que empreender. Não qualquer empreendimento, algo visionário, o máximo, nada de boutique de dondoca financiada pelo provedor chateado com o desperdício e a má administração. Não. É a grife, o nome invejado, divulgado, repercutido. Marília não precisa de sucesso afetivo: tem chocolates e poder. Não precisa de gozos fúteis: tem os da Glória. Sua história não é romântica: é épica. Até que o infortúnio...
Ritinha e Vera não estão no conto Botox, de Emmanuel Mirdad. Elas seriam banais demais para um escritor que só encara desafio pesado, que só gosta de personagem escroto, vivo, pulsante. Botox é sobre Marília, sobre o câncer, sobre Érica, a mau-caráter, traidora, sobre Roberta, a incógnita. Também é sobre o poder, mas nada disso importa, pois o legal mesmo é curtir Mirdad em virtuose verborrágica, fluxo contínuo de emoções intensas e completamente inesperadas. Como diz o próprio autor do impagável Botox, “o que seria da ficção sem a surpresa?”.
Surpreso fiquei com este conto, vale mais que um romance, história tão rica quanto o ambiente classe A em que se passa. Sem Ritinhas ou Veras, têm as mulheres de Mirdad: escrotas, poderosas, capazes de nos surpreender. Imperdível.
Aurélio Schommer é escritor e roteirista.